Linguaruda, a internet. Ela conta tudo e, rapidamente, o fato se espalha como faísca de fogo em floresta seca. E destrói, se a mensagem, acontecimento ou o conteúdo não for bem recebido e aprovado pelos seguidores. É o que temos visto, ultimamente. Reputações, histórias, currículos, carreiras ficam sujeitas ao escrutínio das pessoas, ao julgamento, a aprovação ou a desaprovação. E o pior pesadelo pode ocorrer se o fato for negativo, inescrupuloso, reprovável.
Dois acontecimentos recentes com CEOs ilustram isto. O CEO Andy Byron1, da Astronomer, empresa de tecnologia de dados, pego por uma câmara brincalhona e indiscreta, a “kiss cam”, em um show do Coldplay, abraçado romanticamente a sua gerente de RH, Kristin Cabot. O segundo é o CEO Piotr Szc-zerek2, da empresa polonesa Drogbruk, que rouba furtivamente um boné entregue a um garoto pelo tenista Kamil Majchrzak, no US Open. No primeiro caso, os dois foram demitidos, seus casamentos e famílias abaladas. No segundo, o líder permanece no cargo, mas a sua reputação e a da empresa ficaram manchadas, maculadas. Há sempre consequências danosas para atos desonestos, desonrosos, desrespeitosos, desumanos.
Tema delicado, polêmico, cada um faz da sua vida o que bem quer. Mas quando eventos assim são protagonizados por líderes de alto nível, de importantes empresas, de pessoas com grande influência, há o que se pensar, e o que se dizer. O caráter pessoal é um patrimônio, uma riqueza para qualquer indivíduo. E é por meio dele que os líderes são escolhidos, elevados em suas posições, honrados ou desprezados. Ou pelo menos deveria.
Como criar e manter empresas de alto nível com líderes de caráter duvidoso, questionável? Que exemplos eles serão e darão às pessoas, aos colaboradores, aos seus pares?

Sim, o líder é a fonte geradora da cultura, do comportamento e das práticas das pessoas na empresa. Escolha um líder, olhe e analise a sua conduta e observe as suas equipes, elas copiam, se espelham em seu comportamento. A cabeça do líder se multiplica na mente dos colaboradores, nos atos, nos relacionamentos, nas interações, nas atitudes. Silvio Santos, do Grupo SBT, era um líder empreendedor, criativo, alegre, entusiasta, super-humano. Seus líderes e equipes, também. Luciano Hang, da Havan, é um líder cheio de energia, sempre presente, ama estar com as pessoas, colaboradores e clientes, tem um zelo extremado pelo seu negócio, suas lojas, por atender e encantar os clien-tes. E com isto ele é o maior treinador inspirador dos seus 22 mil colaboradores, em suas 200 megalojas. Os colaboradores copiam o líder, replicam, multiplicam o que ele é e faz.
Pergunta: A empresa não sabe, não conhece o caráter do seu líder maior, dos seus demais líderes? A Astronomer e a Drogbruk não tinham conhecimento das atitudes, dos comportamentos, estilo e postura de seus CEOs? Estranho! Parece uma situação de conivência, de permitir, aceitar e apoiar a conduta e a forma da liderança. Como o líder impacta e influencia a cultura, a maneira de ser da empresa, segue-se uma outra pergunta: É isso o que queremos para a nossa empresa? É desta maneira e com esta cultura que alcançaremos a nossa visão, os resultados que desejamos para o futuro? Assunto sério, crítico, fundamental. Que empresa queremos ser e que líderes precisamos para construir a nossa visão?
Sabemos que o mundo dos negócios é racional, pragmático, uma arena feroz de competição e, na maioria das vezes, prioriza muito mais os resultados, os números, sem se preocupar com os caminhos, os meios, a maneira como se chega ao objetivo. Vencer a qualquer custo, é o lema. Será? Empresas de cultura e posturas agressivas e duvidosas costumam ganhar por um tempo, mas sofrem e perdem em algum momento, caem na destraça e amargam um futuro incerto. Ainda que vençam, a sua reputação é malvista. Descobertos os seus erros, as suas práticas ambíguas, levará um grande tempo para se desfazer e recuperar a confiança e a força da marca.
Por outro lado, empresas simpáticas, humanizadas, confiáveis desfrutam de admiração, de respeito, da preferência e apoio dos seus envolvidos (colaboradores, clientes e parceiros), prosperando acima da média do seu mercado. E os líderes são os responsáveis pela gestão, estratégia, comunicação, pela maneira como a empresa é percebida, entendida, aprovada ou reprovada. Líderes arrogantes, equipes distantes, desengajadas.

De todas as qualidades e características de um líder (visão, carisma, empatia, credibilidade, criatividade, ousadia etc.), penso que a humildade é a mais valiosa e importante. Humildade é a qualidade de quem age com simplicidade, uma característica das pessoas que sabem assumir as suas responsabilidades, sem arrogância, prepotência ou soberba. Apesar de sua posição de poder e de autoridade, elas entendem que as pessoas são importantes, aproximam-se delas, as ouvem, dão liberdade para suas ideias e ações, as valorizam, as conquistam. O resultado? Líderes humildes são queridos, respeitados, amados pelos seus liderados e seguidores. Humildade não é fraqueza, é grandeza, virtude, conexão.
Você se lembra de algum líder que teve que era humilde? Estava entre as pessoas, era acessível, ouvia e respeitava as ideias, tratava com respeito, inspirava e desafiava, tinha bom-humor, era divertido, comunicava frequentemente a visão, o que precisava ser feito e como chegariam lá, era bom exemplo em tudo o que fazia? Eu, sim! Em outro artigo que escrevi recentemente (O Verdadeiro Poder da Liderança3), conto a experiência que tive com o diretor presidente Paul C. Husby. Vale a leitura.
Líderes assim são raros. Eles têm uma combinação equilibrada e poderosa dos traços marcantes para o exercício da liderança acrescido de uma dose, sem moderação, de humildade. E, por isso, as pessoas, os seus colaboradores o veem, o ouvem, notam o seu exemplo, aprovam a sua liderança, copiam o seu modelo, o seguem, apoiam e desejam, intencionalmente, ajudá-lo a alcançar a visão proposta. “Eu te vejo e me importo com você”, é a mensagem que eles transmitem em seus atos.

O pesquisador, escritor, palestrante e consultor norte-americano Jim Collins4 apresenta em seu livro best-seller “Feitas para Vencer” (Good to Great) o resultado de sua abrangente pesquisa sobre as razões por que as empresas têm sucesso, alcançam excelência e resultados superiores. O resultado? Liderança! Ele descreve os 5 Níveis de Liderança encontrados na comparação das empresas medianas e das vencedoras destacando a humildade como o Fator X da Liderança. Para Collins, a Liderança Nível 5 é caracterizada por uma combinação de humildade pessoal e uma vontade feroz para algo maior do que si mesmo. Os Líderes Nível 5 canalizam a sua energia e ambição para a causa, a empresa ou a cultura, priorizando o serviço e o sucesso da organização acima de seu ego pessoal. Vale muito a pena a leitura deste livro.
Sim, líderes arrogantes podem comprometer a organização, a cultura, os resultados, a imagem da organização e da marca. Líderes humildes, humanos, sensíveis, que valorizam as pessoas são sempre bem-vistos, aceitos, copiados, atraem e geram adesão à causa, a visão, elevam o valor do projeto, da marca, os resultados.
Para encerrar, mais dois casos de influenciadores com posturas diferentes e resultados idem, que denotam a importância do caráter e da humildade como traço para uma liderança de sucesso. O primeiro aconteceu recentemente com o ex-número 1 do mundo e campeão do US Open em 2021, Daniil Med-vedev5. Ele foi multado em US$ 42.500 (cerca de R$ 230 mil) pelo Grand Slam. O russo recebeu a punição após iniciar uma discussão efusiva com o árbitro na primeira rodada, em um jogo cercado de polêmicas. Na partida contra Benjamin Bonzi, Medvedev se irritou quando um fotógrafo invadiu a quadra acidentalmente e interrompeu o saque do francês, forçando uma paralisação de mais de 6 minutos. Furioso, o russo chegou a quebrar a raquete e disse que precisava procurar “ajuda profissional após o colapso público”.

O segundo se passou em 2017, durante uma conferência de imprensa do US Open, um jovem fã chamado Izyan Ahmad, ou “Zizou”, fez um pedido a Roger Federer6, que era o seu ídolo. Zizou pediu a Federer para continuar a jogar por mais 8 ou 9 anos para que ele pudesse jogar contra ele quando atingisse uma idade apropriada, fazendo uma “promessa de dedo mindinho”. O cumprimento da promessa aconteceu 5 anos depois. Zizou tornou-se um jogador de tênis nacionalmente reconhecido e Roger Federer, juntamente com a Barilla, organizou uma surpresa para ele. Zizou acreditou que estava a viajar para a Suíça para um treino, mas, em vez disso, foi levado para conhecer Federer. Os dois jogaram uma partida de tênis, e Zizou teve a experiência de um sonho ao jogar com o seu ídolo, sendo o dia descrito como o “melhor dia da sua vida”.
Explodir, contrariado e descontrolado, e responder desrespeitosamente ao juiz ou cumprir a promessa e realizar um sonho de uma criança são gestos opostos que demonstram que a atitude e postura de um líder, um influenciador, podem criar histórias e memórias futuras diferentes, de vergonha ou de orgulho. A Liderança Nível 5 pode ser nata, os casos raros, faz parte da pessoa, de sua personalidade. A boa notícia é que ela pode ser aprendida, praticada, desenvolvida. Treinar, treinar, treinar, criar intencionalmente o hábito de viver uma liderança humilde que impacta a vida das pessoas, da organização, do futuro, para o bem de todos.
Para Refletir…
1. Quem é o seu modelo e exemplo de Líder Nível 5?
2. Que empresas você conhece com Cultura de Liderança Humilde?
3. Minha empresa valoriza e tem pessoas com Liderança Nível 5?
4. Há treinamento para o desenvolvimento de Líderes Nível 5 em minha empresa?
5. Eu sou um líder humilde, que coloca as pessoas e suas necessidades acima das minhas ou busco resultados a qualquer custo?
6. O que posso fazer para desenvolver uma Liderança Nível 5?

Recursos Adicionais
1 CEO da Astronomer, Show do Coldplay
https://www.instagram.com/reel/DMVJOKjsPNN/?igsh=MWQzMXp5bnc5N21tYw==
2 CEO da Drogbruk furtando o boné de um garoto no US Open
https://www.instagram.com/reel/DOBel6uknu0/?igsh=cmRjNGVlbnVlbzF0
3 O Verdadeiro Poder da Liderança, INSIGHTS INSPIRHE, Walter Quintana
https://inspirhe.com.br/o-verdadeiro-poder-da-lideranca/
4 Jim Collins, Fator X da Liderança
https://www.instagram.com/reel/DMRCrrisSwf/?igsh=NGl6bzV2ajU5djh2
5 Daniil Medvedev. Jogo caótico no US Open e multa de R$ 230 mil
https://www.instagram.com/reel/DNyYrga0gDP/?igsh=MTY0bHN1emV2MGtkbA%3D%3D
6 Roger Federer cumprindo promessa com Zizou, jovem tenista
https://www.instagram.com/reel/Cg_qgTzlToV/?igsh=anduanh2M25mYXBz




