Trabalho ou Diversão?

Logo de manhã, a mãe bate na porta do quarto do filho e diz: “Acorda, filho. Está na hora de você ir para a escola”. Ainda debaixo da coberta, contrariado, o filho responde: “Mãe, hoje eu não vou ao colégio. Estou morto de sono, detesto aquele lugar e não aguento mais aqueles meninos”. A mãe, enérgica, dá um ultimato: “Filho, levanta já da cama e vai agora! Você tem um dever a cumprir, já está com 45 anos e você é o diretor do colégio”.

Às vezes, isso acontece. Não temos vontade de ir para o trabalho. Por alguma ou mais razões “perdemos o brilho”. Foi o que me disse o psicanalista, há 25 anos atrás, em seu diagnóstico após o meu relato em minha primeira consulta. Eu estava depressivo, sim, passei pelo meu burnout. O trabalho estava me matando. Perdi a força, a alegria, a razão de me levantar, ir me divertir e fazer o que mais amava, o meu trabalho.

Tive o privilégio de passar 21 anos transformando o meu trabalho no meu parque de diversões, a minha segunda casa e família, mas, naquele momento, o novo e maior desafio me consumiu, fiz tudo o que sabia e me esgotei. Mentalmente, fisicamente, emocionalmente, espiritualmente. Pensava que nunca iria acontecer comigo, mas vivi esta experiência. Que bom! Há sempre coisas boas nas situações, aparentemente, ruins. Os percalços e adversidades que encontramos costumam ser os maiores e melhores professores na vida. Anjos surgiram no caminho, vários, fui tratado, tive o meu tempo de renovação, de grande aprendizado. O trabalho precisa ser divertido, prazeroso, se não, precisamos pensar, escolher e mudar, buscar um lugar onde a diversão está.

Diversão aqui não é bagunça, festa, irresponsabilidade, fazer o que se dá na telha, muito pelo contrário, é total intencionalidade e responsabilidade em algo que nos dá razão, sentido, valor, propósito, um motivo para viver e brilhar. Não desperdice o seu tempo, ele é o bem mais precioso que você tem na vida. Um dia, ele se acaba e precisa ter valido a pena cada segundo da sua breve existência.  

1. Você está se divertindo?
2. Foi bom para você?
3. Para ou continua?

Estas eram as provocadoras perguntas de um dos meus warm-ups (exercícios de aquecimento da audiência) no início de palestras e reuniões. O que você está fazendo, se ocupando, está gerando satisfação, alegria, prazer? Está sendo bom, agradável, faz entusiasticamente sem parecer peso, aborrecimento (flow)? Você está sendo consumido ou edificado, enriquecido pelo trabalho? Se bom ou ruim, o que vai escolher? Vai parar ou continuar o que está fazendo? Parecem perguntas bobas, sem sentido, despretensiosas, mas têm profundo impacto e relevância sobre tudo, o dia de trabalho, a carreira, a saúde, a vida. Somos o dono, o piloto do nosso destino. Nossas escolhas nos levam aos resultados de tudo, positivos ou negativos.

O trabalho precisa ser divertido. E a diversão tem a ver com aprendizado, contribuição, reconhecimento e prosperidade. Eu aprendo e cresço, tenho liberdade para fazer com criatividade, sou reconhecido e valorizado pelo que faço, enriqueço material, mental, emocional e espiritualmente. E aqui ligamos o assunto a liderança, ao trabalho do líder, nosso tema de sempre. Permita-me compartilhar duas cenas recentes que presenciei.

Cena #1

Estou sentado em um banco de uma praça (amo fazer isso, ver o movimento, as pessoas, os acontecimentos, contemplar a vida), à sombra de uma linda árvore. Faz muito calor (verão europeu) e o chão está coberto de folhas e sujeiras. Surge um gari, um jovem rapaz, com o seu carrinho de limpeza. Vendo toda aquela sujeira, imaginei que ele pudesse estar desanimado, aborrecido e desolado com a sua vida, o seu trabalho. Ele varre calma e dedicadamente uma área e deposita a sujeira recolhida no saco de lixo do carrinho. Neste momento, aparece uma senhora e o seu cãozinho. Eles param e conversam com o rapaz. Parecem amigos, conhecidos, o cãozinho está feliz e interessado. O rapaz tira algo do bolso e dá na boca do cão. Mais um pouco de conversa, outro petisco e eles se despedem.

O gari vai para outra parte da praça. Retoma o serviço. Outro cão grande e o seu dono aparecem. Eles param junto ao rapaz, o cão demonstra maior interesse, alegria em encontrá-lo. Enquanto eles conversam, o gari pega um pacote, tira alguns petiscos e dá na boca do cachorro. Felizes, o dono e o seu cão seguem o seu caminho. Assistindo a tudo, não resisti. Levantei-me, fui até o gari e iniciei uma prosa.

Ele é venezuelano, de nome Winter. Elogiei o seu jeito de trabalhar, a sua disposição, a maneira de tratar as pessoas e, especialmente, os animais. Ele agradeceu, mostrou o seu segredo, o pacote de petiscos e disse: “Eu tenho sempre comigo petiscos para os pets. Eles amam, e os donos também. São meus amigos. Está vendo aquele cachorrinho do outro lado da rua? Também faz parte do meu clube”. Uau! Clube do Winter, o Especialista de Encantamento de Pets e Tutores. Nos despedimos e ele seguiu o seu trabalho.

Genial! Amei! Não reclamou, não lamentou, não culpava ninguém, a sorte, o destino, a condição desafiadora como ganhava o seu sustento. Com sorrisos, ele faz o seu trabalho, cuidadosa e caprichadamente, e cria maneiras de agradar, encantar, alegrar e valorizar quem encontra pelo caminho. Atitude de Excelência Pessoal. Não importa a situação, a circunstância, ele escolhe ser e fazer o seu melhor, ajudar os outros, fazer amigos, amizades. Ele é querido, respeitado, é o brilho da praça, um gari, ou melhor, um Encantador de Pets e Tutores.

Cena #2

Estou em um McDonald’s. Hora do almoço, grande movimento na loja. Uma fila grande esperando os pedidos ficarem prontos no balcão de entrega. Clientes impacientes. A equipe de atendimento corre de um lado ao outro, agitados, super ocupados, para preparar tudo. O quadro de funcionários parece estar menor do que a necessidade, a demanda.

Eles estão visivelmente atrapalhados, de expressões carrancudas, irritados, cansados. Não há ninguém atendendo os clientes no balcão, os pedidos são feitos no tótem, eletronicamente (redução de despesas, de afeto, do olá, do bom dia, das interações humanas). Neste momento, vou até o balcão pedir guardanapos. Não os recebi em minha bandeja. Espero um bom tempo até ser atendido pela moça da entrega (a mesma que atende todo mundo), sem sorrisos, sem palavras, apenas os guardanapos, meio amassados, friamente. Eles não estão mais a disposição dos clientes em um balcão, os guardanapos, os temperos, complementos etc. Redução de despesas, controle da quantidade de uso, fornecer o mínimo possível, só se o cliente pedir. Tem sido assim no geral, em outros comércios. A moda pega, contágio social. Em tempos bicudos, de receitas competitivas, corte os copinhos de café, os guardanapos, o papel higiênico etc. Economia burra e pouco produtiva.

Duas situações, realidades opostas. A primeira parece ruim, mas o protagonista, o gari, transforma em algo maravilhoso. A segunda tem charme, mas o que se vê é um pequeno caos. Clientes insatisfeitos, colaboradores presentes apenas de corpo, fisicamente, o coração, a emoção, a mente e paixão muito distantes.

O trabalho precisa ser divertido, saudável, benéfico, enriquecedor. Criar bem-estar, crescimento, desenvolvimento, riqueza para todos, a razão de uma empresa, de um líder. Se as pessoas estão bem, o restante também es-tará – a satisfação dos clientes, o engajamento dos colaboradores, a produtividade, as vendas, o lucro etc. Acredite! O sucesso e a perenidade de uma empresa dependem diretamente da felicidade das pessoas (internas e externas) que interagem com ela, do prazer, bem-estar e diversão (alegria) que eles obtém em suas interações.

A neurociência tem demonstrado que a doença e a saúde vêm da mente, elas se originam na eletroquímica do processamento dos neurônios (máquina fantástica, o nosso corpo). Dopamina, serotonina, endorfinas e ocitocina, os neurotransmissores do bem-estar, os hormônios da felicidade, jorram em nossas veias e órgãos à medida que vivemos e presenciamos eventos positivos, agradáveis. Celebração de eventos e conquistas, notas de agradecimento e reconhecimento, abraços, sorrisos, cooperação, boas notícias, reuniões animadas e positivas etc.

Se a mente entende que o ambiente e os eventos são uma ameaça, dá-lhe adrenalina e cortisol por todo o corpo, os hormônios do estresse, os neurotransmissores responsáveis pela proteção da vida, da geração de energia extra e concentrada para a fuga ou o enfretamento da situação. Mas que, se frequentes e em doses elevadas, eles adoecem o corpo, geram todo tipo de disfunção, de mal-estar, de uma enxaqueca a um câncer. O corpo somatiza o que a mente pensa e sente. Dor e sofrimento ou prazer e diversão. A tristeza adoece os ossos, a alegria eleva o espírito e rejuvenesce, prolonga a vida. Sim, a “diversão na empresa e no trabalho” deveria estar na pauta dos planejamentos estratégicos e nas reuniões mensais de revisão de resultados.

O trabalho precisa ser divertido e o líder, a liderança, a empresa precisam criar este ambiente favorável, promotor de crescimento. Visão com sentido e causa relevantes, cultura de valor humano e não das coisas, ambientes enriquecidos, de exemplos e modelos elevados, relacionamentos positivos e de confiança, liberdade, reconhecimento, prosperidade. Esta é a maior e mais produtiva fonte de receitas, de lucro, de crescimento e valor da marca que uma organização pode ter, possuir.

Hoje recebi, com imensa alegria, uma mensagem de WhatsApp do amigo João Evangelista de Freitas, de Uberlândia/MG, o Joãozin como o chamo. Trabalhamos juntos em um projeto há três décadas. Ele me informou que continua na mesma empresa e de que hoje (2/7) ele estava completando 50 anos como Profissional de Vendas (agora Representante Comercial), com muito orgulho.

Uau! Único, superespecial,  valiosíssimo o Joãozinho. Um profissional de excelência, Mestre PhD em Encantamento de Pessoas, ele transforma todos os desafios em oportunidades e continua brilhando aonde vai, com quem ele interage. Para ele, o trabalho é pura diversão, ele ama o que faz e extrai desta atitude e estilo de vida o respeito dos amigos e clientes, a satisfação e felicidade de aproveitar cada dia para fazer o que ama. Está sempre bem-disposto, feliz, para cima, animado, com as suas divertidas piadas de mineiro, dá gosto de ficar perto dele. Parabéns, querido Joãozinho. O artigo desta semana é uma homenagem carinhosa à sua dedicação, a sua valiosa história, contribuição, realizações e conquistas. Muito obrigado pelo seu belíssimo Exemplo de Vida.

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Big abraço. Fomos feitos para brilhar. Continue brilhando!

1 comentário em “Trabalho ou Diversão?”

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