Vestir a camisa? Só se for a minha!

A ARMADILHA DO “AMOR PELO TRABALHO” NO MUNDO CORPORATIVO

Sou de uma geração em que permanecer por muito tempo na mesma empresa era sinal de orgulho e admiração. Meu pai sempre me deu conselhos valiosos para que eu pudesse crescer na carreira em busca de posições cada vez melhores. “Pense e aja como se fosse o dono da empresa”, ele dizia. Revendo a minha trajetória profissional, vejo que tudo isso teve um impacto grande em minha carreira, meu trabalho, uma vez que passei mais de 20 anos trabalhando em uma mesma empresa (em diferentes funções e, inclusive, diferentes países).

Em linha com este raciocínio que estamos fazendo, também surge a famosa frase: “Para se ter sucesso é preciso vestir a camisa da empresa!”. O jargão, provavelmente, veio do futebol dos tempos dourados quando o nosso país era quem dava as cartas, os jogadores realmente vestiam a camisa de seus times. Eles permaneciam por muitos anos jogando no mesmo clube e, inclusive, negando-se a vestir a camisa de adversários, mesmo em troca de melhores salários. O saudoso Pelé, um dos maiores exemplos disto, jogou no Santos F.C. dos 15 aos 34 anos (por incríveis 18 anos).

Analisando o mercado de trabalho atual, vejo que muita coisa mudou. Embora muitas empresas se esforcem para reter talentos, os níveis de insatisfação e rotatividade nunca foram tão altos. Segundo pesquisa da FGV/ Flash, 60% dos profissionais brasileiros não estão engajados em suas empresas. Uma liderança despreparada associada a ambientes tóxicos está trazendo à tona o novo monstro corporativo – a deterioração da saúde mental. A consequência é a constatação de que o Brasil é o 2º país com mais casos de Burnout no mundo (atrás apenas do Japão).

Apenas para o INSS, em 2024, o impacto financeiro dos afastamentos por saúde mental foi estimado em quase R$ 3 bilhões. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que transtornos mentais causam a perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano globalmente, gerando prejuízos de US$ 1 trilhão.

O PROBLEMA NÃO É A FALTA DE PROPÓSITO, E SIM A AUSÊNCIA DE ALINHAMENTO DE PROPÓSITOS.

Frase antiga: “Trabalhe com o que gosta e nunca mais precisará trabalhar em sua vida”. Mas, por trás desta retórica, muitos profissionais têm se questionado se estão realmente trabalhando por um propósito que faça sentido… ou, estão sendo explorados em nome dele. Vejo que muitas empresas não se preocupam em definir a sua cultura, o seu propósito ou valores. Ao mesmo tempo, tampouco entendem que estes pilares são como a grama do seu jardim. Irão crescer, independentemente da sua vontade. Podem se transformar em um belo e verde gramado, ou em um local onde crescem todo o tipo de ervas daninhas.

Recentemente, atendi um cliente em um processo de mentoria. Ele estava em busca de um novo emprego e acabamos entrando no tema da entrevista final. Sua maior preocupação era com as perguntas do entrevistador e como deveria se posicionar. Disse a ele que, ainda mais importante do que se sair bem nas respostas, eram as perguntas que ele deveria fazer. Sim, o casamento precisa funcionar dos dois lados. E neste caso, o nosso bate-papo foi afunilando para o conceito do propósito e dos valores. As dicas principais que passei a ele foi para que pudesse identificar, através de perguntas, qual era o verdadeiro propósito daquela empresa e quais os valores que ela pregava entre seus funcionários, parceiros e clientes. Valores esses que se traduzem em comportamentos esperados.

Diante das respostas, ele então deveria avaliar se estes comportamentos estão alinhados a tudo o que ele acredita, ou seja, seus valores e propósitos pessoais. Somente aí, com bastante alinhamento, é que o SIM deveria ser dado. Vejo, constantemente, profissionais extremamente preocupados com o salário, benefícios e bônus, que simplesmente se esquecem de mergulhar nesta seara e, lá na frente, serão cobrados a tomar atitudes que eles próprios sempre recriminaram. Algumas delas envolvendo comportamentos antiéticos ou que representem assédio moral.

PROPÓSITO BONITO NÃO BASTA. ELE PRECISA SER VIVIDO!

Não tem almoço grátis nesse jogo! Por mais bonito que o propósito possa ser, se não for praticado e acompanhado de benefícios justos, equilíbrio emocional (saúde mental) e reconhecimento, não irá funcionar. Os seus futuros funcionários (inclusive os atuais das gerações mais novas) buscam um “algo mais” no trabalho que vai muito além dos benefícios explícitos e considerados “atrativos”.

Segundo pesquisa realizada pela Randstad Workmonitor em 2025, 48% dos brasileiros não trabalhariam em empresas com valores diferentes dos seus. Para pensar e repensar! Culturas cujos valores não se sustentam, onde o discurso não acompanha a prática, irão levar a consequências catastróficas (Quiet Quitting é uma delas). Quando o propósito é usado para justificar sobrecarga e ausência de limites, ele deixa de ser valor e vira instrumento de manipulação e terrorismo.

Talvez o que justifique este tipo de comportamento por parte das empresas é que ainda existe um grupo de pessoas que vê no salário o maior motivador (ainda que temporário), mesmo que isso leve a desfechos com final não tão feliz. Mas a maior parte das pesquisas não lista o dinheiro como principal atrativo quando se está em busca de um novo emprego. Os pontos que mais se destacam passam pelos horários flexíveis, oportunidades de aprendizado e crescimento, companheirismo e projetos com significado.

E AGORA? QUAL CAMINHO A SEGUIR?

EU, O LÍDER.

Se você estiver em um cargo de liderança, com autonomia para fazer os ajustes culturais em seu time, divisão ou empresa, veja recomendações para pensar e deixar suas noites de sono um pouco mais agitadas.

1. Lembre-se que o discurso do “trabalhar com amor, vestir a camisa” precisa ser revisto. Amar o que se faz é ótimo – desde que não vire pretexto para salários baixos, jornadas abusivas ou metas inalcançáveis.

2. Tenha um propósito que faça sentido para a empresa, funcionários, parceiros e clientes. Valorize este propósito começando com uma carga de trabalho proporcional à remuneração, oferecendo ambiente saudável e respeitando o tempo dos seus profissionais.

3. Líderes precisam dar exemplos. “Walk as you talk”, como diziam os gringos. Os valores de sua empresa precisam ser demonstrados em forma de comportamentos, e eles precisam ser vividos por você, LÍDER. Se estar próximo dos clientes é um valor da empresa, então saia do seu escritório e vá para a rua, visitar clientes junto com o seu time.

4. Garanta que o clima organizacional seja sua prioridade. Stephen Covey, autor do best-seller “Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes”, já dizia: “Trate bem os seus funcionários que eles irão tratar bem os seus clientes”.

EU, O COLABORADOR.

Cada colaborador precisa estar constantemente revendo seus objetivos, propósito e valores. É parte de nosso processo de evolução como seres humanos. O nosso propósito pode sim mudar ao longo de nossa vida. Isso é normal. O mais importante é garantir que seus propósitos e valores estejam alinhados com aqueles praticados pela empresa onde você está (ou onde pretende estar). Essa é a verdadeira estratégia do sucesso profissional. Além disso:

1. Reavalie constantemente sua vida profissional. Você se sente respeitado onde trabalha? Seu potencial está sendo reconhecido ou explorado?

2. Use as 3 regras básicas para saber se o trabalho atual está fazendo bem a você:
– Estou me divertindo a maior parte dos dias?
– Estou aprendendo coisas novas?
– Estou sendo reconhecido pelas minhas contribuições?

3. Não espere que a empresa ou seu líder dê o primeiro passo. Seja você a fonte de mudança. Dê sugestões, aja com empatia, ajude seus colegas de trabalho.

A conexão emocional é uma das principais ferramentas para se chegar ao sucesso, seja ele profissional ou pessoal. Quando percebemos que alguém está realmente preocupado em conhecer nossas necessidades, e atendê-las com o coração aberto, cria-se aí uma conexão que vai muito além da fidelidade. Uma conexão que nos torna embaixadores daquela empresa, daquela experiência, daquele líder. Nunca mais será quebrada, mesmo se não estivermos mais coabitando o mesmo espaço e tempo.

Seja sincero com você mesmo. Seja corajoso para tomar as decisões corretas. Seja feliz, pois a felicidade precede o sucesso. Sempre foi assim. Se gostou do texto, compartilhe com líderes e colegas que estão repensando sua relação com o trabalho.

1 comentário em “Vestir a camisa? Só se for a minha!”

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