Quo Vadis? Viver com Propósito

Por Grace Knoblauch Bossert e Renato Alahmar

Quo Vadis é uma expressão em latim que significa “Para onde vais?”. Olhando para a história, podemos refletir com exemplos que deparamos em nossos caminhos, alternativas e resultados. Surpreende-nos, por exemplo, os recordes de Demissões por Justa Causa1 que estamos presenciando.

No passado as empresas tinham muitas restrições internas para justificar uma demissão desta natureza, mesmo em casos graves de indisciplina. A Justa Causa é a forma de demissão mais grave da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), uma vez que o funcionário perde vários direitos e coloca-se em situação dramática no mercado de trabalho, dificultando muito a sua recolocação. Tenta-se justificar estas demissões por meio de vários aspectos:

• O trabalho presencial, onde os líderes percebem e avaliam que os colaboradores não estão fazendo aquilo que a empresa espera;
• A qualificação específica inadequada àquela função, onde ficam sujeitos a erros mais graves;
• O menor custo para a empresa;
• Comportamentos de má vontade, corpo mole, descaso, falta de compromisso, desrespeito às pessoas e processos, discussões com colegas.

Nos Estados Unidos, este evento é visto como o “Quiet Quiting”, significando uma renúncia silenciosa. As pessoas vão deixando de fazer o essencial, até que recebem o carimbo da Justa Causa. Pensando um pouco mais sobre isso, fazemos um paralelo com os casos de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade). Psiquiatras americanos e franceses diagnosticam esta ocorrência pela base biológica como fenômeno social2.

Portanto, até que ponto esse aumento de demissões trata-se de um fenômeno social, desta geração mais jovem? O que está acontecendo? Para onde estamos indo? Como podemos contribuir para o pleno desenvolvimento de jovens e seus gestores nesta fase do mercado de trabalho, uma vez que, em breve, serão nossos médicos, engenheiros etc.

Um dos caminhos para contribuir com os jovens está em acreditar neles enquanto realizamos experiências fora da esfera virtual. A Neurociência mostra o impacto da Dopamina em nosso comportamento. Gerar experiências reais é impulsionar o cérebro a níveis de prazer mais consistentes e perenes, diferentes dos imediatistas gerados pelo uso excessivo de telas em isolamento social (a pandemia esfriou as relações interpessoais). A importância do “acreditar” como estratégia de desenvolvimento humano é mostrada na transição emocional e psíquica de Tião Santos, um dos catadores de material reciclável no Documentário “Lixo Extraordinário”3, do artista plástico Vik Muniz.

Tião diz: “Tem hora que dá vontade de desistir de tudo. Não dá vontade de ficar mais aqui!”, um pensamento bem comum entre os colaboradores nas empresas. Em seguida, afirma: “Tudo valeu a pena. O que fiz até hoje valeu muito a pena. Ninguém acreditava na gente, nem a família, ninguém acreditava em mim!”, ao se deparar com a venda do quadro com a sua imagem em um leilão4. Destaque para Tião, que se baseou em “O Príncipe” de Maquiavel, “Arte da Guerra” de Sun Tzu e textos de Nietsche para melhorar sua forma de gerenciar a Associação de Catadores do Jardim Gramacho no Rio de Janeiro.

Para finalizar, e por falar em livros, precisamos refletir: O que dizer dos jovens, hoje em dia, terem um vocabulário tão reduzido? Demonstram um interesse muito pequeno por livros e leituras, que são fontes inesgotáveis de criatividade e imaginação. Quanto maior for o acesso de uma criança a estímulos linguísticos e a bens educativos, culturais, orais e escritos, maior será a probabilidade de desenvolver um vocabulário vasto, rico, diversificado, que em muito irá contribuir para o seu êxito escolar e social.

E o que dizer da qualidade das pessoas que estão chegando as faculdades? O Ensino Médio (e as famílias) voltado apenas à formação técnica, e muito pouco à maturidade de comportamentos? “Parece que o nosso Ensino Médio tem sequestrado a capacidade de inovação dos nossos garotos”, comenta Alvaro Schocair, Founder e CEO da Link School of Business em seu X.

Tião e Vik têm um propósito! Eles têm o “Quo Vadis” instaurado que retroalimenta insights. É preciso compreender que temos em nossa cabeça um equipamento poderosíssimo que orquestra nossas escolhas conscientes e inconscientes, dominando nossas reações para o sucesso, ou para as complicações das nossas emoções negativas. Fazer perguntas como: “Onde está o seu propósito?”, que é o estímulo fundamental que faz acreditar em si mesmo, que faz mover para algo maior. Busque alguém que possa ajudar, fique perto, aprenda com a coragem de modificar-se. “Quo vadis?”, acredite em você!

Referências

1 Segundo a LCA Consultores, com base nos dados extraídos do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), houve um acréscimo de 25% nas demissões de janeiro de 2024, comparado a janeiro de 2023.

2 9% das crianças americanas e 0,5% das francesas em idade pré-escolar são diagnosticadas com TDHA, os critérios da avaliação Psiquiátrica diferem na consideração e relevância de fatores biológicos, emocionais, mentais, sociais e familiares e as intervenções farmacológicas ou não farmacológicas também diferem no tratamento.

3 Lixo Extraordinário Documentário (Vik Muniz)
https://www.youtube.com/watch?v=61eudaWpWb8

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/05/31/decada-jogada-no-lixo-meu-maior-oscar-nao-aconteceu-ainda-diz-tiao-santos-10-anos-apos-fim-do-aterro-de-gramacho.ghtml

4 O quadro de Tião foi arrematado por £ 28.000 libras no leilão da Phillips de Pury e Company

Saiba Mais em www.neuroarte.com.br – Contato: grace@neuroarte.com.br
Arteterapeuta, Pós-Graduanda em Arte Reabilitação, Ex Executiva.

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