Planejamento Estratégico X Riscos

Planejar sem enxergar o risco

“O risco vem de não saber o que você está fazendo.”  Warren Buffett

Analisando todos os processos de Planejamento Estratégico que já participei, tanto como executivo dentro das empresas em que trabalhei, assim como consultor conduzindo sessões de planejamento dentro de clientes, chego à conclusão de que, na grande maioria dos casos, existe uma alta dose de “Otimismo”.

Apesar de ser um fator importante no modelo mental orientado para o crescimento, o otimismo acaba sendo como muletas que sustentam a visão de que tudo dará certo, ou seja, a combinação entre estratégia e risco acaba sendo negligenciada pelos executivos, gerando muita vulnerabilidade para a empresa.

Caso Ambipar

Foi o que aconteceu recentemente com a empresa Ambipar. Fundada em 1995, a Ambipar Group é uma multinacional brasileira especializada em gestão ambiental e resposta a emergências químicas e ambientais. Com sede em Nova Odessa/SP, a empresa teve uma expansão meteórica, ampliando rapidamente a sua atuação para mais de 40 países, oferecendo serviços que vão desde logística reversa e economia circular até atendimento a desastres ambientais.

Da expansão ao colapso

Em 2020, a empresa iniciou a sua expansão internacional através de várias aquisições, o que levou a um aumento de alavancagem e exposição cambial. Esta estratégia de crescimento, sustentada pelo aumento do endividamento, sem o devido controle dos riscos (diferentes empresas, diferentes culturas, diferentes ambientes legais) e de liquidez, levou a empresa a problemas graves.

A velocidade de expansão foi maior do que a velocidade da estrutura financeira e da governança. Resultado: quando as condições de mercado se deterioraram, com o aumento dos juros, a queda nas receitas e a desvalorização dos títulos de crédito corporativo, a Ambipar perdeu a confiança dos investidores e viu o valor de seus papéis despencar.

Planejamento, Risco e Decisão: Desconexão Explosiva

1. Plano ambicioso com falhas na ancoragem
O plano da Ambipar era ambicioso: crescer rápido, consolidar sua presença global e financiar a expansão via aumento do endividamento. Mas, a estratégia ignorou alguns riscos como um cenário de estresse, volatilidade cambial, risco de crédito e liquidez.

2. Gestão de Risco: Nunca é cedo demais (mas foi tarde demais)
A Ambipar negligenciou a gestão de riscos ao não integrar o monitoramento financeiro e operacional ao seu plano de crescimento, acreditando que a expansão contínua e a valorização de mercado compensariam qualquer possível desequilíbrio. Ao subestimar riscos críticos (exposição cambial, endividamento elevado, concentração de receitas e deterioração de crédito) e não criar mecanismos eficazes de controle e mitigação, a empresa foi “surpreendida” com a deterioração rápida de seus ativos.

3. Governança ausente: Cegueira ou miopia?
Além disso, faltou transparência na comunicação com o mercado sobre a real situação de sua alavancagem e liquidez. Essa combinação de otimismo excessivo e ausência de governança de risco fez com que a empresa perdesse credibilidade com consequente queda das ações e colapso dos produtos financeiros atrelados ao seu desempenho.

XP e BTG: Otimismo em excesso ou miopia?

O grande número de investidores que aplicaram nos COEs (Certificado de Operações Estruturadas) da Ambipar, através da XP e do BTG, sofreram perdas expressivas que chegaram, em alguns casos, a 93% do capital investido. Enquanto o produto ofertado aos clientes era apresentado como sendo de baixo risco, o acionamento de cláusulas de vencimento antecipado e a rápida deterioração do crédito da Ambipar fizeram com que os resgates pagassem apenas 6,88% do valor originalmente investido.

Essa situação evidenciou não apenas a complexidade e os riscos ocultos do produto, mas também o impacto direto da falta de transparência e da inadequação do produto ao perfil de muitos investidores, resultando em prejuízos financeiros significativos e perda de confiança nas instituições financeiras envolvidas.

A importância da transparência na relação Cliente/Empresa

Embora tanto o BTG quanto a XP disponham de departamentos robustos de análise de risco e compliance, parece que a avaliação do produto e a comunicação do risco aos investidores foram insuficientes. Muitos clientes de perfil conservador foram expostos a investimentos estruturados complexos, sem entender plenamente que o capital estava em risco.

Miopia contagiosa

A pressa em oferecer produtos atrativos e a confiança excessiva na marca Ambipar criaram um cenário em que o próprio distribuidor acabou contribuindo para o colapso, evidenciando que a miopia estratégica e de risco não se limitou à emissora, mas também se espalhou para quem vendeu e recomendou o investimento.

Lições aprendidas

Todo caso merece uma análise detalhada para que possamos aprender, aprimorar e redefinir os nossos processos. Nesta situação emblemática, vemos a importância do planejamento voltado para cenários de crise, evitando o tão praticado “otimismo excessivo”. Era necessário analisar a dificuldade do alinhamento das diferentes Culturas Organizacionais com tantas aquisições em tão pouco tempo.

Também é necessário simular cenários com quedas de receita, estresses cambiais, retração de crédito e falta de liquidez. A alta liderança da empresa precisa estar alinhada e suportada pelos conselhos consultivos, administrativos e fiscais. Esta é a verdadeira importância da governança.

A falta de transparência com o mercado pode levar (como aconteceu, neste caso) a uma crise de confiança com danos na reputação da empresa. No caso da Ambipar, boa parte dos executivos de alta patente deixaram a empresa, aprofundando ainda mais essa sensação de que o barco estava à deriva. Por fim, parece que os KPIs de risco não foram acompanhados assim, como os modelos para cenários dinâmicos.

Para pensar…

O caso Ambipar deixa lições valiosas para líderes e gestores corporativos, que vão além do setor financeiro e se aplicam a qualquer decisão estratégica de alto risco:

  • Integre risco à estratégia
    Planejamento e gestão de risco devem caminhar juntos, não isolados. Otimismo é sempre bom, desde que seja consumido com as devidas doses de risco.
  • Transparência é essencial
    Comunique claramente aos stakeholders sobre todos os riscos envolvidos em produtos, serviços ou decisões estratégicas.
  • Conheça o seu cliente
    Assegure que os seus produtos estejam sempre adequados ao perfil dos compradores. Enganar o cliente em troca de lucro rápido pode ter um desfecho catastrófico.
  • Monitore seus riscos continuamente
    Riscos evoluem rapidamente; processos de controle e alerta precoce são fundamentais.
  • Prepare-se para cenários extremos
    Simule crises e seus planos de contingência. Nunca seja pego de surpresa.
  • Evite decisões guiadas por otimismo excessivo ou pressa
    Decisões estratégicas devem ser fundamentadas em dados, análise crítica e visão de longo prazo.

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