Mais do que nunca, decisões coletivas serão vitais. Decisões precisarão de vários pontos de vista, garantindo que nada, absolutamente nada ficou fora do radar.
Peter Drucker foi muito feliz ao afirmar que “a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. Prever o que vem pela frente nunca foi tão desafiador quanto agora. Em tempos de planejamento estratégico, antecipar cenários é uma das principais tarefas dos gestores e, também, uma das mais complexas para garantir que oportunidades sejam exploradas e riscos mitigados.

Em minhas consultorias, conduzo frequentemente análises de cenário e confesso: está cada vez mais difícil antever o que está por vir. Guerras impactam cadeias globais de suprimentos; tarifas comerciais surgem da noite para o dia, derrubando previsões de vendas e margens de lucro; e a Inteligência Artificial encurta o ciclo de vida de produtos e soluções, criando empresas na mesma velocidade com que enterra negócios antes consolidados.
A Visão da Liderança
Uma pesquisa recente da Edelman com CMOs e COOs revelou o tamanho da preocupação dos líderes:
• 88% se preocupam com mão de obra (escassez de talentos, qualidade da liderança, turnover, sindicatos, greves).
• 83% citam a segurança e crimes cibernéticos como tópicos prioritários.
• 78% mencionaram riscos com a cadeia de fornecimento (falta ou problemas de qualidade).
• 76% demonstram preocupação com temas voltados a diversidade, equidade e inclusão (DEI – Diversity, Equity and Inclusion).
• 63% estão olhando para as fake news, desinformação ou a simples falta dela.
O diagnóstico é claro: a incerteza deixou de ser uma variável e passou a ser o próprio contexto.
A Extrema Incerteza
O índice de Incerteza Econômica Mundial está batendo recordes! O World Uncertainty Index (WUI), indicador desenvolvido por economistas da Universidade de Stanford e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para medir o nível global de incerteza econômica e política, está batendo recordes. Ele é calculado a partir de relatórios trimestrais de empresas de mais de 140 países, padronizando resultados para permitir comparações internacionais ao longo do tempo e em 2025 esse índice bateu o recorde de 460 pontos, tendo como pano de fundo as eleições americanas e a guerra de tarifas entre os países. E parece que não vai parar por aí.

Quanto maior o valor do índice, maior é a percepção de incerteza no ambiente global, refletindo eventos como crises financeiras, mudanças políticas, guerras ou pandemias e, portanto, maior a tendência de cautela por parte de empresas e investidores.
Pesadelos e noites mal dormidas
Tanto quanto o ambiente econômico, o político também vem tirando o sono dos empresários. Políticas de imigração mais restritivas irão se intensificar e, com isso, afetarão negócios que dependem deste tipo de mão de obra. Não falo apenas sobre trabalhos que exigem menos qualificação, mas também do outro extremo: a mão de obra altamente qualificada.
Exemplo disto é a nova taxa americana para o visto H-1B (visto de trabalho) que vai incidir sobre funcionários das empresas americanas (atualmente mais de 70% vão para indianos). Cada empresa operando nos Estados Unidos que quiser ter em seu quadro de funcionários um profissional não americano, terá que pagar 100 mil dólares por ano para o governo.
Gerenciar em tempos de Extrema Incerteza
Esqueça tudo o que aprendeu nos MBAs ou na sua experiência de vida corporativa. O passado ensina, mas não prepara para o que está por vir. Quando a incerteza atinge níveis alarmantes como os que estamos vendo atualmente, os modelos que as empresas têm em mãos simplesmente não funcionam! Isto é uma ameaça clara a sobrevivência de qualquer empresa.

Quando o “Normal” deixa de existir
A magnitude da incerteza que as organizações enfrentam, que é definida pela frequência e pela extensão das mudanças nas informações, implica em que o modelo operacional deva permitir o aprendizado contínuo e a formulação flexível de respostas à medida que as situações evoluem.
Com níveis de incerteza mais longos e mais impactantes, o mundo corporativo vai precisar operar em modo de crise por longos períodos. Testar os inúmeros modos de falha, ou seja, diferentes cenários, seus impactos e possíveis soluções, vai deixar de ser uma tarefa que acontece somente durante o planejamento estratégico. Será o dia a dia da liderança!
O seu Modelo vai falhar
Quem não se adaptar, irá morrer! A frase veio da teoria da origem das espécies proposta por Charles Darwin em 1859. Os modelos de gestão tradicionais não suportam a velocidade atual das decisões que, agora, precisam ser tomadas em intervalos cada vez mais curtos. Uma pesquisa de mercado, dependendo do tempo que levar para ser feita, tabulada e enviada ao time estratégico da empresa, pode chegar já totalmente desatualizada. Este é a velocidade com que o mundo trafega agora.
O que fazer? Para onde correr?
O primeiro passo é aceitar esse “novo normal”. A liderança precisa entender que, apesar de toda a experiencia acumulada ao longo dos anos, não está imune aos erros provenientes de decisões precitadas, sem base em dados atualizados.
Tudo precisa de um novo olhar, ou como gosto de dizer, um novo Mindset. Esta nova postura exige que a empresa não queira brigar com a incerteza, mas sim abraçá-la! A humildade será a bússola para navegar nesse mar turbulento. É preciso entender que o nosso vasto conhecimento é incompleto e que as decisões, agora, precisam ser constantemente revisitadas à luz das novas evidências.
Decisões Colegiadas
Mais do que nunca, decisões coletivas serão vitais. Decisões precisarão de vários pontos de vista, garantindo que nada, absolutamente nada ficou fora do radar. E será preciso ter a garantia que elas, as decisões, sejam tomadas de forma colegiada, ou seja, respeitando todas as opiniões, por mais diferentes que possam ser. Empresas, mais do que nunca, precisarão de conselheiros independentes para trazer uma visão diferente, antepor linhas de raciocínio já antigas e enraizadas na cultura da empresa, enfim, um olhar ampliado. Ainda são poucas as que implementaram um Conselho Consultivo em sua estrutura de governança.
Os dados são o bem mais precioso neste ambiente. Quanto mais informação, quanto mais atualizada, melhor será o seu processo decisório. A precisão não existe aqui. O ótimo sempre será o inimigo do bom. Agir rapidamente pode dar a vantagem competitiva que a sua empresa precisa.
Mas, se as decisões foram equivocadas?

Minha única recomendação neste caso é: se errar, que seja rápido e barato! O maior erro é não fazer nada, fingir que está tudo bem, achar que as coisas irão se acalmar.
Na época da epidemia da Covid, quando praticamente tudo fechou, as empresas que se moveram rapidamente, como os restaurantes que montaram suas entregas em domicílio, ou as academias que criaram apps para que as pessoas pudessem se exercitar em casa, foram as que sobreviveram.
Vivemos a Era da Certeza da Incerteza
E, nesse cenário, a liderança tem papel decisivo: criar ambientes de aprendizado contínuo, tomar decisões baseadas em dados e, sobretudo, cultivar a humildade de revisar rumos. O futuro não pertence a quem tem todas as respostas, mas a quem se adapta com coragem e rapidez. A SUA EMPRESA PODE NÃO CONTROLAR O QUE VIRÁ, MAS PODE ESCOLHER COMO VAI REAGIR. E essa escolha começa com você, líder.




