Trabalho e Gerações

Outro dia no restaurante, acenamos para a encarregada da limpeza, uma senhora muito gentil, e ela deu aquele capricho na mesa. Quando a elogiamos por sua presteza ela disse: “A geração Nutella não se esforça para fazer bem-feito!”.

Nota: Quando disse Nutella, estava se referindo à chamada Geração Z, os nascidos entre 1995 e 2010, fortemente marcada pelo advento da internet que buscam um ambiente que promova a sua autonomia onde a hierarquização é fraca. Conhecida também por valorizar a velocidade, querem progressões rápidas na carreira e remunerações justas e tendem a não se sacrificar pelo trabalho prezando por sua qualidade de vida, saúde física e mental.

Todos podem dar um novo início à vida, seja qual for a idade.

Quando pensamos desenvolver algo é comum acreditarmos que só alguém jovem, com toda a vida pela frente, é capaz de fazer isso. Será que, por esta razão, muitas empresas estão acelerando a substituição dos sêniores pelos jovens? Os jovens estão cheios de energia, mas será que conseguem se engajar na Cultura das empresas?

“Quando fazemos o que amamos, cada dia pode ser o melhor de nossa vida”.

Um idoso, por exemplo, pode decidir se reinventar, pois sempre é tempo de brilhar. Certamente, você já ouviu que importante não é quantos anos mais viveremos, mas o que faremos com o tempo que nos resta.

No Japão, é muito comum começar uma vida totalmente nova para completar sua vida profissional. Pessoas que passaram a maior parte do tempo em escritórios, atendendo às necessidades da empresa, podem assumir novos desafios fazendo aquilo com o que sempre sonharam.

Por isso, é muito comum encontrar “encantadores” guias turísticos de 80 anos ou mais em estações de trem, felizes em ajudar os viajantes vindos do mundo inteiro, oferecendo-se voluntariamente para explicar o que podem ver na região e dando-lhes dicas sobre caminhadas e horários de transportes.

Durante minha viagem ao Japão tive experiencias mágicas que me marcaram.

Durante a visita ao Ritsurin Park, na cidade de Takamatsu, assim que entrei um senhor se aproximou-se, deu-me as boas-vindas típicas como só um japonês sabe fazer e perguntou se eu entendia inglês (minha fisionomia não é nada nipônica). Disse que teria muito prazer em dar uma volta comigo para mostrar os pontos principais. Foi incrível!

Comentou sobre os Bonsais de mais de 400 anos, a casa de chá do imperador, a ponte do lago, plantas e flores típicas. Ao final, gravou uma mensagem de agradecimento em meu celular (em japonês pausado, disse com calma: “Quando fazemos o que amamos, cada dia pode ser o melhor de nossa vida!”) e fez um último pedido com o característico largo sorriso. “Fizemos uma visita muito rápida pelos pontos principais e agora que você já sabe precisa percorrer todo o trajeto novamente, só que com muita calma, bem devagar, usando todos os sentidos para levar com você as melhores lembranças.

Obedeci com muito prazer e segui à risca. Lembro-me dos detalhes que guardei no coração. Ao provar o chá, apreciando o silêncio e harmonia e ao sentar-me diante da ponte, sem pressa, desfrutando do som das águas e pássaros. Aqueles momentos extraordinários, que não voltarão acontecer exatamente da mesma forma nunca mais.

Nossa vida profissional sempre é de muita pressa, correrias e urgências, que não podemos conectar e apreciar as mensagens da natureza diante de nós. Aquele conselho para retornar, com calma, à trilha no Ritsurin foi muito sábio.

A expressão Late Bloomers, “o que desabrocha tarde”, refere-se as pessoas que descobrem um novo talento em uma idade avançada. Não há idade para as grandes realizações. As pessoas nunca deixam de melhorar e renovar-se, uma vez que utiliza a sabedoria acumulada para alcançar um novo degrau rumo a novos desafios, uma nova missão, um novo propósito de vida. O que dizer dos mestres em caligrafia, validando o passaporte de peregrino, durante o trajeto de Shikoku. Agora imagine um senhor (chamado de idoso no Brasil) cuidando com maestria, do serviço no café da manhã do hotel.

Agilidade e cuidado com os clientes, orientando os jovens garçons na arte de servir.

Em Tokyo, visitei uma das estátuas mais fotografadas em todo o mundo. Hachiko, o cachorro mais famoso do Japão, retratado no filme “Sempre ao seu Lado”, fica bem à saída da estação Shibuya. Filas imensas se formam em atenção ao cão mais fiel do mundo e, claro, todos querem tirar uma selfie.

Mestres em caligrafia, validando o passaporte de peregrino, durante o trajeto de Shikoku.  

Mas, por ali, tem um senhor muito simpático que se oferece para tirar uma “foto profissional” com o seu celular, com um cartaz as costas dizendo “we will take pictures free”. Fiquei impressionado uma vez mais. Não pela fila imensa, mas pela alegria do fotógrafo. Não resisti e me aproximei para perguntar: “Por que o senhor faz isso? E sem ganhar nada, exclamei!”. Ele respondeu com simpatia: “É o meu hobby, agradar as pessoas com o meu talento”.

No Brasil, a recente pesquisa feita pela Labora em 2024 traz pequenos avanços, boas notícias, mas ainda muitos desafios para a valorização dos profissionais 55+, 65+, 75+. A diversidade geracional não é presente em 77% das empresas, mas já foi pior.

“É o meu hobby, agradar as pessoas com o meu talento”.

Por que será? Falta empatia com os experientes ou é meramente um certo desprezo por tanto conhecimento adquirido no passado, julgando estarem ultrapassados? Os que hoje decidem não estão preocupados quando chegarem ao grupo dos 55+ porque, talvez, se importam muito mais com o curtíssimo prazo.

A tendência em muitos países é para uma força de trabalho cada vez mais multigeracional, tanto para atividades remuneradas quanto para voluntários que, certamente, podem contribuir com a vasta experiência em processos internos ou serviços aos clientes. Este movimento é denominado a Revolução da Longevidade, que traz reflexões importantes para o futuro do mercado de trabalho e das empresas que se pretendem inovadoras, antenadas e contemporâneas.

Será o início de uma nova era no Brasil?

 Será que a Revolução da Longevidade não poderia ser uma alternativa para contribuir com a Geração Nutella, para que se tornem profissionais mais respeitados e engajados com o propósito da empresa? Se conseguirmos continuar vivos e com saúde, só Deus sabe que novas capacidades estão dentro de cada um de nós.

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