Lições do Futebol

Inovação e excelência vencem campeonatos.

Futebol é um negócio como outro qualquer. Pessoas, recursos, metas, desempenho. Precisa ser profissional: governança, liderança, estrutura, estratégias, Cultura, inovação. Pessoas em primeiro lugar, sempre!

Assunto fresquinho (como diria o peixeiro)! Ou, quentinho (como diria o padeiro)! São fatos recentes ocorridos na maior paixão do brasileiro, o futebol. Ah o futebol, este esporte inspirador, exemplar, irracional! Trocamos de cidade, de empresa, de profissão, cônjuge e até de religião, mas de time não, nunca! Curioso! Para se estudar. Chama a NASA!

Como diz o velho ditado popular, “futebol, política e religião, não se discute”, cada um tem a sua opinião, preferência. Garantia de discussão, desunião. Peço, portanto, licença e a sua compreensão para expor estes comentários e ideias, para fins de reflexão aplicada aos negócios, a gestão das empresas.

Somos seres normais, pacíficos, respeitosos, educados, mas quando vestimos a camisa do time querido e adentramos ao estádio ocorre uma transmutação (como o incrível Hulk). Naquelas duas horas e pouco de jogo, as pessoas ficam possuídas (saem da casinha), motivadas pelo comportamento coletivo de manada, expressam as suas emoções mais instintivas, primitivas, xingam, ofendem, cospem e jogam objetos nos adversários, brigam, vale tudo para derrotar, vencer e superar o oponente. Ah, o futebol! Um experimento social científico único, sem igual.

Três casos rápidos e interessantes que merecem a nossa atenção e reflexão, análise, com lições para o mundo corporativo. Não sou especialista na área (futebol), apenas um apaixonado pelo esporte que gosta de uma boa partida e espetáculo (raro, hoje em dia), qualquer uma, um técnico leigo como os milhões de brasileiros, do maravilhoso país do futebol. Fique à vontade para acrescentar os seus pitacos, pontos de vistas, perspectivas, outras lições que não percebi.

Case #1 – Os pequenos GRANDES

Neste fim de semana aconteceram as partidas finais dos campeonatos estaduais de futebol pelo Brasil, em sua maioria. Assisti, com grande expectativa a final do campeonato paulista, a eletrizante partida entre o surpreendente Novorizontino, de Novo Horizonte, e o todo poderoso Palmeiras, da capital paulista, atualmente o melhor time do Brasil (governança, liderança, estrutura, estratégia, Cultura, inovação, resultados). Duas realidades e histórias muito distintas, algo como o embate entre Davi e Golias, o adolescente fracote com um estilingue e uma pedra contra o gigante lutador sanguinário, experiente e hiper armado (confira a história no livro de I Samuel, capítulo 17, na Bíblia Sagrada).

O jogo foi realizado no Jorjão (Doutor Jorge Ismael de Biasi), um estádio raiz, com capacidade para 14 mil torcedores (a cidade tem 38 mil habitantes, ¼ da cidade estava lá), na casa do time do interior, vantagem obtida pela maior pontuação e melhor campanha na competição. Yeesss! O time venceu os grandes da capital no certame deste ano: Corinthians (1 x 0), Santos (2 x 1) e Palmeiras (4 x 0). Até o início de março deste ano, o Novorizontino construiu uma notável sequência de invencibilidade jogando em casa, acumulando 14 jogos sem perder. Uau! Se o campeonato fosse de pontos corridos, o Novorizontino teria sido o campeão. Teria sido… verbo improdutivo, poderia, seria, conquistaria, mas não aconteceu.

O jogo foi um teste para cardíacos. Partida às 20h30 de um domingo, os cartolas burocratas organizadores testando novos formatos, regras e condições, nem sempre as melhores. Final boa tem que ser às 16h, à tardinha, para rolar a grande festa do campeão a noite toda. Seria uma grande partida, não fosse o tempo. Chovia aos cântaros, a partida toda. Gramado pesado, encharcado, a arte, o talento dos dois times ficaram prejudicados, impraticável e impossível se jogar com classe naquelas condições, vai na raça, chutão para todo lado.

Antigamente, existiam dois grupos de times de futebol, os da capital, os grandes, famosos e poderosos, de mais recursos, craques e torcida, ganhadores de tudo, e os do interior, os times “pobres” que sofriam e apanhavam dos maiores. Hoje, não mais! Faz uns anos, teve início um novo movimento, uma revolução no futebol, os times geridos com gestão profissional, atração de investimentos e saneamento de dívidas, em modelo SAF (Sociedade Anônima do Futebol), clube-empresa ou modelo associativo. Red Bull Bragantino, Mirassol e Novorizontino são as joias mais brilhantes e expressivas desta nova safra de times vencedores. Eles se converteram no grande “case de sucesso” do segmento com desempenho e resultados impressionantes, muito acima da média.

Os Segredos do Sucesso?

Para eles, futebol é um negócio, uma empresa, com gente profissional no comando (administrativo, financeiro, técnico), contratação por potencial e não pela fama (folha de salários enxuta, jogadores de qualidade, mas não tão badalados), estrutura de treinos para alto rendimento, treinador mentor inspirador mais longevos na posição, valorização do grupo e não de talento individual, estratégia de jogo diferenciada (extremamente ofensiva com transições rápidas, intensidade e forte postura defensiva), atletas motivados que se dedicam com paixão pelo time e pela equipe, entre outros.

O Mirassol é outro grande exemplo. Após ascender meteoricamente da Série D à Série A entre 2020 e 2025, o clube se firmou entre as principais equipes do Brasil, demonstrando a força de sua gestão. O “terror do interior” teve um desempenho histórico no Brasileirão 2025, terminando na 4ª posição atrás apenas do campeão Flamengo, do Palmeiras e Cruzeiro, sendo a melhor equipe estreante na era dos pontos corridos, atingindo 52 pontos em 29 jogos e garantindo vaga na Libertadores com um aproveitamento de 59%. Fabuloso! O “Leão” se destacou pela invencibilidade em casa, com 12 vitórias e 7 empates, e um desempenho de líder contra os grandes de São Paulo (70% de aproveitamento). Ge-ni-al!

Então é isso! Gestão profissional eficiente, infraestrutura de ponta, treinadores intensos e humanizados, espírito de time e não de estrelas, nada de dívidas, de brigas de ego e poder nos cargos de direção, desempenho esportivo em alto nível visando competitividade sustentável. Show! Inteligência de gestão para resultados extraordinários.

Enquanto isso, os grandes clubes estão vivendo dias difíceis. Dívidas bilionárias (Corinthians – R$ 2,4 bilhões; Atlético Mineiro – R$ 1,4 bi; Internacional – R$ 1,2 bi; Flamengo – R$ 1 bi), gestões fraudulentas (São Paulo com impeachment do presidente, Corinthians idem, entre outros), parcerias de patrocínio criminosas (bets, por exemplo), disputas de egos inflados (vários), técnicos “sequestrados” pelas grandes estrelas de salários galácticos, torcidas organizadas criminosas compostas por bandidos que ameaçam jogadores, técnicos e dirigentes. Ufa! Vamos parar por aqui. Com má gestão e baixa eficiência, o futebol não se paga, não prospera, não é um bom negócio. Troca-se a administração, mas o sistema pobre e improdutivo continua, empurra-se o problema. O torcedor fiel voltará para a próxima partida, a despeito de tudo. Não se muda de time, certo? Nem se perder para o maior rival na partida final do campeonato.

O Palmeiras é a exceção deste triste quadro, pela sua governança, liderança, estrutura, estratégia, Cultura, inovação e resultados. É o único time de futebol masculino do mundo a ser dirigido por uma mulher, a Leila Pereira, que está no cargo desde 2021, foi reeleita e seguirá na função até 2027. Ela iniciou no Palmeiras em 2015 como patrocinadora master com as suas empresas Crefisa e FAM. Neste domingo ela levantou a taça de campeão junto com o capitão da equipe, Gustavo Gómez e todos os demais jogadores e comissão técnica. Ela se entrega e vive com paixão as conquistas do time, e as perdas também. Leila tem um estilo de gestão vibrante, firme, sensível, presente, sempre ligada, ativa. Leila chegou a investir US$ 64 milhões na compra de um avião, um bom negócio para ela e suas empresas, mas especialmente para mimar os seus meninos, otimizar viagens, reduzir custos e dar mais conforto e exclusividade nos traslados da equipe pelo Brasil e o mundo. Que luxo! Cesta de 3 pontos para a Leila!

Ela sabe o que quer, projeta a visão, cobra, inspira a todos, valoriza as pessoas, técnico, jogadores. Ela apostou na contratação do Abel Pereira, técnico português iniciante e, até então, pouco conhecido, outra base do sucesso do time. Desde a chegada do Abel em 2020, os outros times já trocaram de técnico inúmeras vezes: São Paulo, 8 técnicos; Corinthians – 10; Flamengo – 10; Santos – 13. Estudos indicam que treinadores da Série A do Brasileiro costumam durar cerca de 5 a 6 meses no cargo. Alguns relatos apontam médias de apenas 15 jogos. O Abel continua firme no posto, amado, respeitado, parecia um menino superfeliz comemorando com os jogadores neste domingo, e só sairá, segundo a Leila, quando ele quiser. Parando por aqui… há muito mais o que se dizer, mas o espaço e o tempo são breves.

A diferença é gigante, gritante e, por isso, o Palmeiras é o melhor do Brasil e da América Latina (como negócio, empresa). Está sozinho, no nível dos times da Europa, gestão profissional, estrutura, estratégia, Cultura, resultados. E vence campeonatos: 11 títulos na era Abel entre campeonato Paulista (4), Brasileirão (2), Copa do Brasil (1), Libertadores (2), Recopa Sul-americana (1), Supercopa do Brasil (1), e dá lucro, muito lucro! Os números falam por si. Ponto! Pronto, falei! 

Case #2 – Flamengo em crise de egos

Vou ser rápido. A demissão do técnico Filipe Luís na semana passada, de madrugada (oi?), após uma vitória de 8 a 0 sobre o Madureira, classificando o time para a final do campeonato carioca, surpreendeu a todos. O assunto rendeu pano para manga (expressão antiga, se falou muito). Filipe Luís consolidou-se como um dos maiores nomes da história do Flamengo, primeiro como lateral-esquerdo ídolo (2019-2023), conquistando 10 títulos, incluindo duas Libertadores e dois Brasileiros. Em 2024-2026, destacou-se como treinador da base ao profissional, vencendo a Copa do Brasil 2024 e Libertadores 2025, com alto aproveitamento.

Filipe Luís teve uma passagem marcante como técnico do Flamengo entre setembro de 2024 e março de 2026, acumulando 101 jogos, com aproveitamento superior a 70%, com 64 vitórias e 5 títulos, incluindo a Copa do Brasil 2024 e Libertadores 2025. Que desempenho, que entrega, que profissional! Nem tanto, pelo menos para o presidente do time. Após renovar até 2027, ele foi demitido na semana passada após perder os títulos da Recopa e Supercopa.

Neste domingo no Maracanã, final contra o Fluminense, a primeira partida sem o Filipe Luís, a torcida gritava o seu nome reconhecendo a qualidade e o valor do treinador, os jogadores comentaram e lamentaram a sua saída em entrevistas. Um profissional campeão, competente, querido pelos seus liderados e pares, de excelentes resultados é demitido. Huummm!

Muitas explicações, a mais razoável parece ser a briga de ego inflado do dirigente cartola pelo técnico que não lhe era bem-quisto. Bom para ele, o cartola, será para o clube? Contratou-se novo técnico, outro europeu, chegou perdido, foi campeão por um time que não comandou, futuro incerto e temerário no novo cargo. Meu prognóstico? Não deverá ter êxito, não neste ambiente, com esta direção, Cultura, o time continuará com problemas. Sem inteligência, eficiência e diferenciação na gestão, nada prospera.

Case # 3 – A Cultura da violência

Há tanto o que se dizer, mas o tempo é curto. Pérola final de fechamento. Mais um clássico de gigantes, Cruzeiro versus Atlético Mineiro, no Mineirão, pelo campeonato estadual mineiro. Clima tenso, aos costumes, provocações, jogadas perigosas, animosidade em grau máximo, no final do jogo, briga generalizada. Tudo começou após um choque de Christian em Everson, na grande área do Atlético. O goleiro do Galo, super irritado com a derrota, não gostou e revidou, empurrando o adversário e se sentando com os dois joelhos em cima dele.

Irracional. Não precisava! Sua atitude foi o estopim para uma tragédia. Os jogadores do Cruzeiro viram a cena e partiram para cima do goleiro, o que provocou uma confusão geral. Socos, chutes, voadoras, xingamentos, um espetáculo de horrores, o pior do futebol, da raça humana. Jogadores, comissão técnica, todos os integrantes do time.

Não era esporte, uma partida de final de campeonato, era luta livre, vale tudo, uma batalha campal, um estado irracional de desrespeito, de violência gratuita, visceral, sem controle. A confusão e o triste espetáculo se encerraram com a expulsão de 23 atletas, 12 do Cruzeiro e 11 do Atlético, o segundo recorde mundial deste fato (o 1º foram 36 cartões vermelhos, em 2011, na 5ª divisão do futebol argentino). Foram os 10 minutos mais degradantes do futebol brasileiro, o pior momento e exemplo deste esporte no Brasil. Inadmissível, intolerável, inaceitável, imperdoável!

O Brasil desenvolveu uma Cultura de violência no futebol, nos estádios. Tem sido assim, faz algum tempo. Entre jogadores, dirigentes, a comissão técnica, os torcedores, dentro e fora dos estádios. É cultural, aprendido, reforçado. Não é entretenimento, é educação para atitudes e comportamentos de violência contra adversários. Vem lá de trás, dos jogos dos gladiadores, de mais antigamente, dos espetáculos de selvageria onde as pessoas se divertiam vendo os seus lutadores ídolos matando animais ou desafetos (cristãos, por exemplo).

Em outros assuntos e áreas também, a polarização está presente. Nós contra eles. Adversários, oponentes, destrua-os, vença-os. Somos o que aprendemos. Copiamos os exemplos, nos modelamos pelo que vimos, vivenciamos, criamos crenças e Cultura de atitudes e comportamentos. Para dizer o mínimo, precisamos educar para o respeito, a dignidade, no futebol, nas empresas, no país. Difícil, quase impossível, mas urgente e necessário.

Concluindo…

Muitas informações, dados, fatos, provocações. A seguir, alguns breves pontos de atenção para pensarmos sobre o nosso trabalho, empresa. Fique à vontade para acrescentar as suas percepções, observações.

Tudo é gestão!
Futebol é um negócio como outro qualquer. Pessoas, recursos, metas, desempenho. Precisa ser profissional: governança, liderança, estrutura, estratégias, Cultura, inovação. Pessoas em primeiro lugar, sempre! Valor, respeito, condições para o desenvolvimento, reconhecimento, todos devem ganhar. Os resultados só aparecem pela administração inteligente e eficiente do sistema e dos recursos. Não importa o tamanho, a história, a fama, o menor pode vencer e superar o maior se for mais estratégico, eficiente e diferenciado que os outros.

Saia da multidão! Olhe, pense e faça diferente!

Ambiente gera resultados!
Reagimos e produzimos conforme as condições em que vivemos, desfrutamos. Se temos recursos adequados, orientações, políticas e treinamentos consistentes e positivos, se formos liderados com respeito e valorização, se recebermos reconhecimento e retorno pelo desempenho, então, nos engajamos e construímos juntos uma história, realização e conquista valiosa, memorável.

O ambiente do seu trabalho promove crescimento, desenvolvimento das pessoas, do sistema?

Liderança que inspira o melhor, vence.
A Leila Pereira é o nosso modelo aqui. Não é perfeita, ninguém é, mas reúne as qualidades, atitudes e comportamentos que fortalecem a visão, inspiram a ação, conquistam a equipe para o desempenho máximo que levará ao sucesso de todos. Mentalidade vencedora sempre!

Os líderes da nossa empresa são modelos e fontes de motivação, desempenho superior, excelência e inovação? Eles geram engajamento e comprometimento dos colaboradores, parceiros, Clientes?

Inovação e excelência vencem campeonatos.
Não existe outro caminho, maneira. Vencem os inovadores que veem, pensam e fazem diferente, melhor, mais criativamente. Produzem e entregam mais valor, benefícios, soluções para as necessidades, os desafios e problemas. Se fazemos o mesmo que os demais, somos comuns, medianos, medíocres.

Você é inovador, cria ideias e soluções novas no trabalho? Sua empresa entrega mais valor aos Clientes, sua empresa encanta os colaboradores, parceiros?

Respeito! Respeito! Respeito! E Dignidade!
Desrespeitar pessoas é o passo garantido para o fracasso, sempre, em qualquer lugar e situação. Mancha-se a reputação, a instituição, a liderança. Seja demitindo um profissional campeão, injustamente, ou agredindo um colega dentro do campo. A violência é o recurso dos fracos, dos sem-razão e inteligência. O respeito é nobre, a grandeza de se tratar o outro como igual, de não o ofender, agredi-lo, prejudicá-lo. A violência não cabe em nenhum lugar, seja uma agressão física, verbal, sexual, assédio moral, humilhação repetitiva, abuso de autoridade, pressão desumana e excessiva, de qualquer natureza. Não!

Nossa empresa é reconhecida por relações de respeito, consideração e valorização às pessoas (Clientes, colaboradores, parceiros, sociedade), de práticas e ações exemplares nos negócios?

Vem aí a Copa do Mundo! O Brasil vai parar para torcer pela seleção canarinho. De técnico novo, importado, estrangeiro, a expectativa está lá em cima, quase uma obrigação de se ganhar. Será? Faz anos que não temos a felicidade e o gostinho de levar o caneco, de sermos campeões mundiais. Quem sabe desta vez? Nós, os milhões de técnicos do país do futebol estaremos a postos, em campo, torcendo e empurrando a seleção para fazermos história. Vai Brasil!

Por Walter Quintana

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